Governo Trump afirma que minoria branca enfrenta discriminação racial; governo sul-africano contesta caracterização de perseguição sistemática
O governo do presidente Donald Trump planeja estabelecer em 17.500 pessoas o teto de refugiados admitidos nos Estados Unidos durante o ano fiscal de 2027, que começa em 1º de outubro de 2026.
Segundo uma comunicação do Departamento de Estado enviada ao Congresso nesta terça-feira (22), as vagas serão destinadas “principalmente” aos africâneres da África do Sul, grupo étnico majoritariamente branco e descendente sobretudo de colonizadores europeus.
A informação foi inicialmente obtida pela CBS News e também confirmada pela Reuters.
A medida mantém uma das mudanças mais significativas promovidas pelo governo Trump na política americana para refugiados.
Por que os africâneres estão sendo priorizados?
A administração Trump afirma que os africâneres enfrentam discriminação racial na África do Sul.
No documento encaminhado ao Congresso, o Departamento de Estado cita questões envolvendo políticas de terras, oportunidades de emprego e educação e episódios de violência contra integrantes de minorias.
Trump vem defendendo desde 2025 que determinados sul-africanos brancos enfrentam perseguição racial e, por isso, deveriam ter acesso ao programa americano de refugiados.
O governo da África do Sul contesta essa caracterização e nega que exista uma política de perseguição sistemática contra a população branca.
Essa divergência tornou-se um dos principais pontos de tensão diplomática entre Washington e Pretória.
Trump abriu exceção para sul-africanos
Quando retornou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump suspendeu amplamente a entrada de refugiados nos Estados Unidos, estabelecendo que exceções poderiam ocorrer quando fossem consideradas de interesse nacional.
Pouco depois, seu governo criou uma política específica voltada aos africâneres.
A prioridade foi formalizada por medidas do Executivo que determinaram esforços para facilitar o reassentamento de africâneres considerados vítimas de discriminação racial.
Em 2026, Trump já havia elevado o teto de admissões de refugiados de 7.500 para 17.500, justificando a decisão pela situação dos africâneres na África do Sul.
Agora, o planejamento para o ano fiscal de 2027 mantém o teto em 17.500.
Quase todos os refugiados admitidos recentemente vieram da África do Sul
A mudança já produziu um efeito expressivo no perfil do programa americano.
Dados analisados pelo Pew Research Center mostram que os sul-africanos passaram a representar quase todas as admissões de refugiados nos Estados Unidos durante o ano fiscal de 2026.
Antes dessa mudança, a África do Sul sequer aparecia regularmente entre os principais países de origem dos refugiados recebidos pelos Estados Unidos.
O cenário contrasta com períodos anteriores, quando o programa americano recebia pessoas provenientes de diferentes regiões atingidas por guerras, perseguições políticas, religiosas e outras crises humanitárias.
Programa pode custar cerca de US$ 500 milhões
Segundo o documento apresentado ao Congresso e obtido pela imprensa americana, o reassentamento previsto para o próximo ano fiscal deverá custar aproximadamente US$ 500 milhões.
O Departamento de Estado afirmou ainda esperar que os africâneres reassentados consigam se integrar plenamente à sociedade americana de maneira que preserve recursos destinados aos contribuintes dos Estados Unidos.
A administração também afirmou não esperar que outros países assumam parcela significativa do reassentamento desse grupo.
Política provoca críticas nos Estados Unidos
A prioridade concedida aos africâneres também provoca oposição dentro dos Estados Unidos.
Críticos argumentam que milhares de pessoas de outras nacionalidades continuam enfrentando guerras, perseguições e crises humanitárias enquanto o programa americano permanece fortemente restrito para esses grupos.
Senadores democratas, entre eles Dick Durbin e Alex Padilla, já questionaram a política e a justificativa utilizada pelo governo para ampliar especificamente as admissões de africâneres.
O governo Trump, por outro lado, sustenta que a situação da minoria justifica uma resposta humanitária dos Estados Unidos.
Washington e Pretória apresentam versões diferentes
O ponto central da controvérsia permanece sem consenso entre os dois governos.
Washington afirma que políticas raciais e fundiárias da África do Sul colocam africâneres em situação de discriminação.
Pretória argumenta que suas políticas buscam corrigir desigualdades históricas deixadas pelo apartheid e rejeita as acusações de perseguição sistemática contra brancos.
Com o novo planejamento para 2027, a questão deixa de representar apenas uma divergência diplomática: ela passa a determinar diretamente quem terá prioridade para entrar nos Estados Unidos por meio de um dos principais programas humanitários do país.