CARACAS – Em um pronunciamento em cadeia nacional transmitido pela TV estatal venezuelana, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, defendeu o que classificou como um “acordo histórico” de petróleo firmado por 25 anos com os Estados Unidos. No discurso, Rodríguez agradeceu de forma explícita ao presidente americano Donald Trump e ao secretário de Estado Marco Rubio pela construção da parceria bilateral.
No entanto, o anúncio expôs uma clara divergência narrativa entre Caracas e Washington. Enquanto Donald Trump afirmou em sua rede social Truth Social que os EUA garantiram o “controle majoritário” sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas venezuelanas, Rodríguez rebateu de forma enfática, assegurando que o país sul-americano não abrirá mão de seu patrimônio.
“Uma coisa deve ficar absolutamente clara: a Venezuela mantém a propriedade e a soberania sobre seus recursos”, declarou a mandatária interina.
Os números e a estrutura do mega-acordo
O projeto desenhado prevê a exploração e o desenvolvimento de 17 campos estratégicos na Venezuela. A meta central da cooperação é fazer a produção venezuelana dar um salto e superar a marca de 1,5 milhão de barris por dia, reativando uma indústria sucateada após anos de sanções e falta de investimentos.
Os termos econômicos detalhados pelo governo interino envolvem:
- Investimento privado estimado: Superior a 100 bilhões de dólares.
- Arrecadação de tributos: Estimada em mais de 209 bilhões de dólares para o caixa do Estado venezuelano.
- Preço de referência: Calculado com base em 65 dólares por barril, sendo que aproximadamente 19 dólares por barril serão revertidos diretamente para a Venezuela.
Segundo Rodríguez, o modelo desenhado permite a injeção de capital, tecnologia avançada e capacidade operacional das refinarias e petrolíferas dos EUA sem transferir a titularidade das reservas ao país norte-americano. No lado americano, o pacto foi costurado diretamente por Marco Rubio e pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, em parceria com o setor privado.
Contexto geopolítico e reação da oposição
A aproximação profunda entre os dois países ocorre em um cenário de transição forçada após a captura de Nicolás Maduro pelas forças militares dos EUA no início de 2026, evento que levou Delcy Rodríguez a assumir o comando interino do Palácio de Miraflores. Desde então, Washington vem aliviando restrições e reabrindo canais de exportação direta para abastecer o mercado norte-americano e conter os preços dos combustíveis nos EUA.
Apesar do otimismo propagado pelo governo interino, o acordo já enfrenta forte resistência interna. Partidos da oposição venezuelana exigiram a divulgação pública e integral do contrato. Lideranças como Juan Pablo Guanipa criticaram o arranjo, argumentando que qualquer estabilização econômica de longo prazo exige, prioritariamente, a realização de eleições presidenciais livres e transparentes. Até o momento, Rodríguez tem evitado cravar datas para um novo pleito democrático.