
Congresso dos EUA questiona contratos milionários para assistência jurídica a crianças imigrantes
Parlamentares democratas cobram explicações do governo Trump sobre a escolha de organizações para representar menores desacompanhados. Experiência jurídica, transparência e continuidade do atendimento estão entre as principais preocupações.
WASHINGTON, EUA — Um grupo de 63 parlamentares democratas dos Estados Unidos intensificou nesta segunda-feira (28) a cobrança por esclarecimentos sobre contratos federais destinados à assistência jurídica de crianças imigrantes que chegaram ao país desacompanhadas de pais ou responsáveis.
Em carta encaminhada ao secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., e à direção do Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR), os congressistas questionaram a decisão do governo de recorrer a organizações cuja experiência na área de imigração consideram insuficiente para atender crianças envolvidas em processos de deportação.
A iniciativa ocorre após a administração do presidente Donald Trump encerrar um contrato com uma rede de organizações especializadas em assistência jurídica a menores imigrantes e anunciar novos acordos com outros prestadores de serviços.
Um dos principais alvos das cobranças é a organização Our Rescue, sediada em Utah e anteriormente conhecida como Operation Underground Railroad, que atua no combate ao tráfico de pessoas e à exploração infantil.
Em agosto, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos anunciou um contrato inicial de US$ 158 milhões com a entidade, sem concorrência pública. Documentos e manifestações parlamentares também apontaram um valor potencial de até US$ 244 milhões para o acordo.
Embora a organização tenha experiência declarada no combate ao tráfico humano, os parlamentares questionam sua capacidade de coordenar serviços jurídicos especializados em imigração para milhares de crianças distribuídas pelo território americano.
A preocupação está relacionada à estrutura operacional, à disponibilidade de advogados qualificados e à necessidade de garantir atendimento individualizado aos menores.
Outro contrato que despertou questionamentos envolveu o Burke Law Group, escritório de advocacia sediado em Houston, no Texas.
O governo federal havia anunciado a intenção de destinar até US$ 150 milhões à empresa para prestar assistência jurídica a menores desacompanhados.
Entretanto, após questionamentos de parlamentares e organizações de defesa dos imigrantes, o escritório retirou-se do processo de contratação.
A empresa possui atuação principalmente em questões empresariais, ambientais e regulatórias. Sua experiência específica na representação de crianças em processos migratórios foi um dos pontos levantados pelos críticos.
A desistência foi confirmada em agosto, antes da nova cobrança apresentada ao governo nesta segunda-feira. Portanto, o valor de US$ 150 milhões não deve ser tratado como contrato efetivamente executado.
Em resposta divulgada pela ABC News nesta segunda-feira, um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos defendeu a contratação da Our Rescue.
Segundo o departamento, a organização possui experiência internacional no enfrentamento ao tráfico humano e conhecimento sobre populações vulneráveis exploradas por redes criminosas.
O governo argumenta que essa experiência permite identificar crianças que possam ter sido vítimas de exploração e encaminhá-las à representação jurídica necessária para buscar alternativas previstas na legislação migratória.
A Our Rescue é atualmente dirigida por Derek Benner, que ocupou uma função de liderança no Departamento de Segurança Interna durante o primeiro governo Trump.
Em manifestação anterior à Axios, Benner afirmou que o trabalho previsto no contrato está alinhado à missão de proteção de crianças vulneráveis desenvolvida pela organização.
A administração federal, portanto, sustenta que a experiência da entidade no combate ao tráfico de pessoas é relevante para o atendimento. Os parlamentares, por sua vez, questionam se essa atuação é suficiente para garantir serviços jurídicos especializados.
A controvérsia ocorre em um momento de mudanças na estrutura federal responsável pela assistência jurídica de menores desacompanhados.
O contrato anterior, que financiava uma rede de organizações especializadas e era supervisionado pelo Acacia Center for Justice, expirou em 31 de julho de 2026.
Segundo informações apresentadas pelo senador democrata Ron Wyden, a rede prestava serviços a mais de 20 mil crianças, incluindo menores que já haviam deixado os abrigos federais, mas continuavam enfrentando processos migratórios.
A interrupção do financiamento provocou preocupações sobre a continuidade da representação jurídica e a possibilidade de crianças perderem o acompanhamento de profissionais familiarizados com seus processos.
O governo informou anteriormente que o U.S. Committee for Refugees and Immigrants (USCRI) passou a prestar assistência jurídica provisória a menores sob os cuidados do ORR.
Organizações que integravam a rede anterior relataram dificuldades financeiras e afirmaram que continuavam atendendo parte de seus clientes mesmo sem os pagamentos federais previstos.
A legislação americana estabelece obrigações específicas para o atendimento de crianças estrangeiras desacompanhadas.
A Lei de Reautorização de Proteção às Vítimas de Tráfico de 2008, conhecida pela sigla TVPRA, prevê medidas de proteção e acesso a serviços jurídicos para menores sob responsabilidade das autoridades federais.
Na carta encaminhada ao governo, os parlamentares argumentam que a prestação desses serviços exige conhecimento especializado das normas migratórias, além de cuidados relacionados à confidencialidade e à proteção das informações pessoais.
Entre os signatários estão os deputados Joaquin Castro e Jasmine Crockett.
Castro declarou à ABC News que o governo tem responsabilidade legal e moral de assegurar representação jurídica qualificada a essas crianças.
Os congressistas também querem esclarecimentos sobre a seleção das organizações contratadas, a capacidade de atendimento e a possibilidade de novos acordos federais.
As cobranças desta segunda-feira ampliam uma investigação parlamentar iniciada nas semanas anteriores.
Em 20 de agosto, o senador Ron Wyden e o deputado Robert Garcia já haviam solicitado esclarecimentos sobre acordos anunciados pelo governo, cujos valores potenciais somavam US$ 394 milhões.
Os parlamentares também questionaram um acordo provisório de até US$ 20 milhões com o USCRI.
A fiscalização envolve não apenas a utilização de recursos públicos, mas também a estrutura de atendimento, a experiência dos profissionais e os mecanismos de proteção dos dados de crianças atendidas pelo sistema migratório.
Até o momento das informações consultadas, os questionamentos parlamentares não constituem, por si só, comprovação de irregularidades na execução dos contratos.
O debate permanece concentrado na capacidade do governo de assegurar continuidade e qualidade à assistência jurídica oferecida a menores desacompanhados, enquanto novas contratações são examinadas pelo Congresso.
ABC News






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