O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a chamar atenção no cenário internacional ao fazer uma declaração de tom informal e simbólico ao comentar as recentes provocações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A fala ocorreu durante um evento realizado em 9 de fevereiro de 2026, no qual o governo brasileiro anunciou bilhões de reais em investimentos na produção de vacinas.
Em tom bem-humorado, Lula afirmou que as provocações de Trump cessariam caso ele compreendesse o “sangue de Lampião” que correria em suas veias, em referência ao cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, figura histórica conhecida pela resistência armada no Nordeste brasileiro nas décadas de 1920 e 1930. Na mesma declaração, o presidente minimizou o poderio militar do Brasil, ressaltando que o país não busca confronto ou escalada de tensões.
A fala ocorre em meio a um contexto de atritos diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos. Recentemente, Trump voltou a ameaçar a imposição de tarifas comerciais contra países alinhados ao BRICS, incluindo o Brasil, em reação a debates sobre desdolarização do comércio internacional. O tema vem sendo acompanhado de perto pela imprensa internacional, com destaque em veículos como a Associated Press e a Reuters.
Lula, por sua vez, tem reiterado discursos em defesa da soberania nacional. Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo em janeiro de 2026, o presidente criticou a influência global de Trump, especialmente o uso de redes sociais como ferramenta de pressão política e diplomática.
A referência a Lampião, embora usada como metáfora de bravura e resistência, gerou forte repercussão nas redes sociais. O cangaceiro é uma figura ambígua na história brasileira: idolatrado no imaginário popular do Nordeste por desafiar autoridades, mas também associado a episódios de extrema violência, incluindo saques e massacres. Nos comentários da publicação, críticos compararam a fala presidencial à glorificação da criminalidade, enquanto apoiadores interpretaram a declaração como retórica popular e simbólica.
Perfis e páginas de viés conservador, como os ligados ao grupo Brasil Paralelo, também reagiram à declaração, enquadrando o comentário como inadequado para um chefe de Estado e exemplo de retórica que relativiza violência histórica.
A declaração de Lula, ainda que informal, evidencia como símbolos históricos e linguagem popular continuam sendo usados na arena política para marcar posições ideológicas e diplomáticas, especialmente em um momento de reposicionamento do Brasil no cenário internacional.
Quem foi Lampião
Lampião foi o apelido de Virgulino Ferreira da Silva (1897–1938), o mais famoso líder do cangaço, fenômeno social marcado por bandos armados que atuaram no sertão do Nordeste brasileiro entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Nascido em Serra Talhada (PE), Lampião entrou para o cangaço após conflitos familiares envolvendo disputas de terra e violência com forças policiais e coronéis locais. Com o tempo, tornou-se o líder mais temido e conhecido do movimento, comandando bandos que circularam por estados como Pernambuco, Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
Apesar de ser retratado por parte do imaginário popular como um “rebelde contra as injustiças”, historiadores apontam que Lampião atuava principalmente como chefe de um grupo criminoso armado, movido por lucro, poder e controle territorial.
Os crimes cometidos por Lampião e seus cangaceiros são amplamente documentados por registros policiais, relatos de vítimas, jornais da época e estudos históricos. Entre eles:
Assassinatos
- Execução de civis, policiais, soldados e inimigos locais
- Mortes por vingança, intimidação ou punição
- Assassinatos públicos para impor medo às populações do sertão
Massacres e chacinas
- Ataques a vilarejos inteiros
- Mortes coletivas de moradores que se recusavam a colaborar
- Episódios de extrema violência contra famílias inteiras
Roubo e saque
- Assaltos a fazendas, cidades e comboios
- Roubo de dinheiro, joias, alimentos, armas e gado
- Extorsão de comerciantes e grandes proprietários
Sequestros
- Sequestro de fazendeiros e familiares para exigir resgate
- Uso de reféns como forma de pressão e barganha
Estupro e violência sexual
- Relatos históricos apontam estupros sistemáticos cometidos por membros do bando
- Mulheres eram frequentemente violentadas durante invasões
- Casamentos forçados e coerção sexual também são registrados
Tortura e mutilações
- Castigos físicos públicos
- Espancamentos, degolas e mutilações como forma de punição
- Uso da violência extrema para impor obediência
Incêndios e destruição
- Queima de casas, fazendas e vilas inteiras
- Destruição de propriedades como retaliação
Extorsão e “imposto do cangaço”
- Cobrança forçada de dinheiro e suprimentos
- Quem se recusava podia sofrer represálias violentas
Relação com o poder local
Lampião também manteve alianças com coronéis, políticos locais e autoridades corruptas, recebendo:
- Proteção
- Informações
- Armas e abrigo
Isso desmonta a ideia de que ele lutava contra o sistema: em muitos casos, Lampião fazia parte dele, atuando como braço armado de interesses regionais.
Morte e legado
Lampião foi morto em 1938, em Angico (SE), durante uma emboscada da polícia. Ele, Maria Bonita e outros membros do bando foram decapitados, e suas cabeças exibidas publicamente — prática comum e brutal da época.
Seu legado permanece altamente controverso:
- Para alguns, símbolo de resistência nordestina
- Para a maioria dos historiadores, um criminoso violento responsável por centenas de mortes e crimes graves
Hoje, há consenso acadêmico de que qualquer romantização ignora o sofrimento real das vítimas do cangaço.
