A mídia brasileira noticiou de forma quase festiva — em alguns casos, até com gargalhadas explícitas — a prisão de Silvinei Vasques é um ex-policial e administrador que atuou como diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF) , após sua tentativa de entrar nos Estados Unidos pelo Paraguai. Deportado, foi entregue às autoridades brasileiras como se o episódio, por si só, encerrasse qualquer debate. Mas a pergunta essencial permanece: o que realmente está por trás dessa tentativa de saída do país?
Reduzir o caso à palavra “fuga” é simplificar demais uma situação complexa. A mesma lógica vale para outros nomes ligados ao governo Bolsonaro, como a deputada Carla Zambelli, o ex-diretor da ABIN Alexandre Ramagem e outros integrantes do antigo governo que buscaram deixar o Brasil. A questão central não é apenas por que saíram, mas do que acreditavam estar fugindo.
Seriam eles pessoas que temiam responder por crimes reais, individualizados e comprovados? Ou indivíduos que acreditavam que seriam julgados não pelos seus atos, mas pela posição política que ocuparam?
Essa distinção é fundamental.
O ambiente jurídico-político instalado no país após os eventos de 8 de janeiro criou, para muitos, a percepção de que não há separação clara entre julgamento jurídico e posicionamento ideológico. A composição da Suprema Corte, com ministros que tiveram atuação política prévia e histórico público de antagonismo ao bolsonarismo, alimenta a sensação de que certos processos já nascem com destino traçado.
Alexandre de Moraes, figura central nesses julgamentos, é visto por críticos como um adversário político declarado do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu grupo. Flávio Dino, hoje ministro do STF, também carrega uma trajetória política recente e participação direta em decisões do Executivo durante o período que antecedeu o 8 de janeiro. Soma-se a isso o fato de outros ministros terem atuado como advogados ou aliados políticos de lideranças hoje no poder.
Para muitos brasileiros — concordem ou não com essa visão —, isso compromete a aparência de imparcialidade, elemento essencial para a credibilidade da Justiça.
Quando alguém acredita que será julgado por quem é e não por o que fez, o instinto humano reage. A história mostra que, em contextos de perseguição política real ou percebida, a tentativa de buscar refúgio fora do país não é incomum. Não se trata de inocentar culpados, mas de compreender o comportamento humano diante da expectativa de um julgamento considerado injusto.
Comparações históricas sempre exigem cuidado, mas servem como alerta: tribunais que deixam de julgar fatos e passam a julgar identidades, grupos ou posições ideológicas deixam de cumprir seu papel fundamental. A Justiça, para existir de fato, precisa ser imparcial, previsível e cega a preferências políticas.
A grande pergunta, portanto, não é apenas se Silvinei ou outros erraram ao tentar sair do país. A pergunta mais profunda é: quantos brasileiros, em situação semelhante, não fariam o mesmo se acreditassem que já estavam condenados antes mesmo do julgamento?
Curiosamente, até mesmo aqueles que hoje julgam — se estivessem certos de que enfrentariam um tribunal formado por adversários declarados — talvez também buscassem proteção fora de suas fronteiras.
Quando a Justiça perde a confiança de parte significativa da sociedade, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional. E nenhum país se sustenta por muito tempo quando seus tribunais são vistos não como árbitros, mas como partes do conflito.
