Uma operação antiterrorismo conduzida pela polícia italiana levou à prisão de nove pessoas suspeitas de integrar uma rede de financiamento ao Hamas, grupo classificado como organização terrorista pela União Europeia. Segundo autoridades italianas, cerca de € 7 milhões teriam sido movimentados por meio de ONGs e estruturas que se apresentavam como humanitárias, mas que, na prática, serviriam para ocultar repasses ilícitos.
No centro da apuração aparece a Infopal, uma empresa de curta duração registrada no Brasil, na Bahia, em 27 de fevereiro de 2023. A companhia foi encerrada poucos meses depois e passou a ser analisada por investigadores europeus por suposta ligação operacional com integrantes da rede desmantelada. A abertura da empresa ocorreu antes dos ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, fato que chamou a atenção das autoridades estrangeiras.
De acordo com documentos citados pela investigação italiana, a Infopal teria vínculos com a jornalista italiana Angela Lano, conhecida por atuação em causas pró-Palestina e por sua participação na Flotilha da Liberdade para Gaza. Investigadores avaliam se Lano teria atuado como elo de comunicação e articulação internacional da rede, hipótese que ainda não resultou em condenação judicial.
O caso avançou para o Parlamento italiano, onde parlamentares cobraram explicações sobre a circulação de recursos por países da Europa e da América Latina. Autoridades brasileiras confirmaram que o Brasil passou a cooperar formalmente com a investigação, fornecendo informações administrativas e societárias, embora não haja, até o momento, denúncia formal apresentada no país.
No Brasil, o episódio foi rapidamente incorporado a debates políticos mais amplos. Publicações em redes sociais e blogs passaram a associar a investigação europeia a figuras públicas brasileiras, como Marcos Tenório, citado em reportagens anteriores por suposto lobby internacional — alegações que não resultaram em condenação judicial. As menções alimentaram discursos que sugerem uma infiltração de grupos criminosos e extremistas em instituições brasileiras.
Essas narrativas também passaram a se conectar a outros escândalos recentes amplamente debatidos, como o caso Banco Master, que envolve suspeitas de fraudes financeiras, operações de câmbio bilionárias, possível lavagem de dinheiro e investigações sobre relações com o crime organizado. Embora as apurações ocorram em esferas distintas, analistas observam que a junção desses temas tem sido usada para sustentar a tese de uma suposta “captura institucional” — hipótese que não encontra comprovação em investigações oficiais até o momento.
Especialistas em segurança internacional alertam que casos de financiamento ilícito costumam ser explorados politicamente e exigem cautela. “Há diferença entre investigações em curso, cooperação internacional e conclusões definitivas. Misturar esses níveis pode gerar desinformação e tensão institucional”, avalia um pesquisador ouvido pela reportagem.
As autoridades italianas seguem aprofundando as diligências, enquanto no Brasil os órgãos de controle afirmam acompanhar o caso dentro dos limites da cooperação jurídica internacional.
