Primeira-dama classificou apoiadores da esquerda como “resistência” em um estado que considera dominado pelo bolsonarismo; declarações repercutiram nas redes sociais e foram contestadas pelo comentarista Caio Coppolla.
Declarações da primeira-dama Janja Lula da Silva durante um ato de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Florianópolis, provocaram reação nas redes sociais e entraram no centro do debate político em Santa Catarina.
O evento aconteceu no sábado, 19 de setembro, na Praça Tancredo Neves, em frente à Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Foi o primeiro ato de campanha de Lula no estado na eleição presidencial de 2026.
Ao discursar, Janja classificou militantes de esquerda catarinenses como uma espécie de “resistência” dentro de um estado de forte presença conservadora e bolsonarista.
A primeira-dama também afirmou que conhecia pessoas que teriam deixado Santa Catarina por não conseguirem conviver com o ambiente político existente no estado.
Ao mesmo tempo, Janja pediu que seus apoiadores evitem confrontos e busquem o diálogo com eleitores indecisos, jovens e idosos nas semanas finais da campanha.
A reação de Caio Coppolla
As declarações rapidamente repercutiram fora do palanque.
O comentarista político Caio Coppolla publicou um vídeo intitulado “Hostil: o discurso divisivo de Janja sobre Santa Catarina”, no qual faz uma dura crítica às declarações da primeira-dama.
Coppolla contesta a maneira como Janja descreveu o ambiente político catarinense e procura estabelecer um contraste entre as críticas feitas ao estado e seus indicadores econômicos, sociais, de segurança e de atração populacional.
A análise representa a interpretação política do comentarista sobre o discurso de Janja, e não uma conclusão estatística de que a orientação política de determinado governo seja responsável isoladamente pelos indicadores de um estado.
Mas alguns números ajudam a colocar a discussão em perspectiva.
Santa Catarina é o estado que mais ganhou moradores pela migração
Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que Santa Catarina apresentou o maior saldo migratório entre todos os estados brasileiros no período de cinco anos analisado pelo instituto.
Foram aproximadamente 503,6 mil pessoas chegando de outros estados e 149,2 mil saindo, produzindo saldo positivo de 354,3 mil moradores.
A taxa líquida de migração foi de aproximadamente 4,65%, também a maior do país.
O dado não permite afirmar por que individualmente cada pessoa decidiu morar em Santa Catarina. Trabalho, renda, custo de vida, segurança, família e qualidade de vida podem influenciar decisões migratórias. Ainda assim, o resultado mostra que, no período analisado pelo IBGE, muito mais brasileiros chegaram ao estado do que partiram.
Esse dado ganhou relevância justamente porque uma das declarações de Janja tratou de pessoas que teriam deixado Santa Catarina em razão do ambiente político.
Diferenças econômicas também aparecem nos números
Os indicadores de renda mostram diferenças importantes entre os estados citados no debate.
Dados do IBGE referentes a 2025 apontam Santa Catarina entre os estados de maior rendimento domiciliar per capita do Brasil.
Em levantamento do instituto sobre rendimento médio mensal real domiciliar per capita, Santa Catarina registrou R$ 2.752, enquanto a Bahia ficou em R$ 1.452 e o Pará em R$ 1.435.
Vale destacar que o Pará pertence à Região Norte, enquanto a Bahia está no Nordeste.
Essas diferenças econômicas existem, mas também não permitem atribuir os resultados exclusivamente a partidos ou governos atuais. Desenvolvimento econômico, industrialização, estrutura produtiva, escolaridade, urbanização, história regional e políticas implementadas ao longo de décadas estão entre os diversos fatores que influenciam os indicadores.
Segurança também entrou na discussão
Outro argumento levantado nas reações ao discurso foi a segurança pública.
O tema exige cuidado porque existem diferentes indicadores para medir criminalidade. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, por exemplo, contabiliza as chamadas Mortes Violentas Intencionais, que incluem homicídio doloso, feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial.
Os dados nacionais mais recentes mostram que o Brasil registrou queda de 8,2% nesse indicador em 2025, passando de 20,6 para 19,1 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes.
As diferenças entre os estados, entretanto, continuam expressivas.
Por isso, segurança, renda e migração passaram a ser utilizados por críticos de Janja como contraponto à descrição política feita pela primeira-dama sobre Santa Catarina.
Um estado eleitoralmente resistente ao PT
Há ainda um componente eleitoral importante.
Santa Catarina tem apresentado, nas últimas eleições presidenciais, forte votação em candidatos ligados à direita. No segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro obteve ampla maioria dos votos válidos no estado.
É justamente nesse ambiente eleitoral que Lula tenta ampliar sua votação em 2026.
No ato de Florianópolis, Janja pediu que os apoiadores conversem com pessoas que estejam indecisas ou desanimadas e destacou a necessidade de buscar votos por meio do diálogo.
“Temos duas semanas para trabalhar para a vitória, mas com diálogo”, afirmou durante o evento.
Sua mensagem, portanto, teve duas vertentes: de um lado, uma crítica direta à predominância do bolsonarismo no estado; de outro, um apelo para que os próprios apoiadores procurem eleitores que pensam de maneira diferente.
Catarinenses reagem nas redes
Nas redes sociais, parte dos usuários reagiu negativamente às declarações da primeira-dama.
Entre os argumentos apresentados estão justamente a segurança, a economia e a capacidade de Santa Catarina de atrair moradores de outras regiões.
Outros usuários, por sua vez, apoiaram a mensagem de Janja e interpretaram sua declaração como uma crítica ao ambiente político conservador, e não ao estado ou à população catarinense como um todo.
Essa distinção é importante porque a repercussão transformou uma fala dirigida principalmente à militância em uma discussão mais ampla sobre Santa Catarina.
Os dados do IBGE confirmam ao menos um elemento objetivo dessa discussão: independentemente das preferências políticas de seus moradores, Santa Catarina tornou-se o principal destino líquido da migração interestadual brasileira no período analisado pelo Censo 2022.
A disputa agora é sobre a interpretação política desses números — e, em plena campanha presidencial, tanto governo quanto oposição tentam utilizá-los para sustentar narrativas distintas diante do eleitor catarinense.