As tensões entre Washington e Brasília atingem um novo patamar às vésperas do encontro entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva na Casa Branca, previsto para março. O que está em jogo vai muito além de uma visita diplomática: trata-se de um embate direto entre dois modelos de poder, duas visões de mundo e duas estratégias para o futuro das Américas.
Após uma ligação de 50 minutos em 26 de janeiro, ficou claro que o encontro acontecerá “olho no olho”, como definiu o próprio Lula. A agenda é explosiva: multilateralismo, crescimento econômico, a crise na Venezuela e o controverso “Conselho da Paz” proposto pelos Estados Unidos. Cada um desses temas representa uma encruzilhada para a ordem global — e, especialmente, para a soberania brasileira.
O contexto da colisão diplomática
O clima de desconfiança se intensificou no início de janeiro de 2026, quando os Estados Unidos conduziram uma operação militar na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro. O governo brasileiro reagiu com dureza. Em nota oficial, o Itamaraty classificou a ação como uma violação grave da soberania venezuelana e do direito internacional.
Embora Lula tenha evitado uma escalada retórica direta contra Trump, iniciou contatos com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, reforçando a defesa de uma solução conduzida pelo próprio povo venezuelano. A posição brasileira contrastou frontalmente com a abordagem norte-americana, centrada na intervenção como instrumento de segurança regional.
Foi nesse cenário que Trump apresentou, durante o Fórum de Davos, a proposta do chamado “Conselho da Paz” — um novo organismo internacional liderado pelos Estados Unidos para atuar em conflitos globais. Para críticos, o projeto cria uma estrutura paralela à ONU, sem limites claros de atuação.
O Brasil foi convidado a integrar o Conselho, mas a resposta de Lula foi imediata e crítica. O presidente brasileiro acusou Trump de tentar criar uma “nova ONU”, controlada por Washington, substituindo o multilateralismo pela lógica da força.
Durante a conversa telefônica de janeiro, Lula foi além e apresentou uma contraproposta: restringir o Conselho exclusivamente à crise em Gaza e garantir um assento para a Palestina — ponto ignorado no desenho original do órgão. A manobra diplomática sinalizou rejeição ao projeto sem fechar completamente o diálogo.
A estratégia de Trump: unilateralismo e pressão máxima
Para Trump, o encontro com Lula é uma peça estratégica em sua política externa baseada no lema “America First”. O presidente norte-americano enxerga instituições multilaterais como entraves ao poder dos EUA e prefere soluções unilaterais ou fóruns controlados por Washington.
O “Conselho da Paz” se insere nessa lógica: uma alternativa ao Conselho de Segurança da ONU, onde Rússia e China mantêm poder de veto. Ao consolidar esse novo mecanismo, Trump busca redesenhar a governança global sob liderança direta dos Estados Unidos.
Na América do Sul, a visão da Casa Branca é clara. A região é tratada como área estratégica, e a instabilidade venezuelana é vista menos como uma crise humanitária e mais como uma ameaça à segurança nacional dos EUA. A intervenção militar foi, nesse sentido, uma demonstração de força.
No campo econômico, Trump mantém sua tática conhecida: criar crises para negociar a partir de uma posição de vantagem. Apesar das tarifas de até 40% impostas ao Brasil em 2025, parte das barreiras foi posteriormente removida. Ainda assim, o risco permanece. Avaliações de mercado já alertam que novas restrições comerciais podem impactar negativamente a economia brasileira em 2026.
Para Trump, a reunião é uma oportunidade de pressionar o Brasil a aderir ao Conselho da Paz e a alinhar-se à estratégia americana para a Venezuela. Resistência, nesse contexto, pode ter custo econômico.
Lula e a aposta no multilateralismo
Do lado brasileiro, a estratégia é oposta. Lula busca reafirmar o Brasil como uma potência emergente autônoma, defensora do multilateralismo e capaz de dialogar com diferentes polos de poder. Em meio à tensão com Washington, o presidente intensificou contatos com líderes europeus e latino-americanos, tentando formar uma frente em defesa das instituições globais.
Para o Planalto, aceitar o Conselho da Paz nos moldes propostos por Trump significaria subordinar a política externa brasileira aos interesses dos EUA. Rejeitá-lo, por outro lado, aumenta o risco de atritos com o principal parceiro comercial do país.
A crise venezuelana é o ponto mais sensível. Lula insiste em uma solução negociada e na defesa da soberania do país vizinho, posicionando o Brasil como possível mediador. Essa postura encontra respaldo em setores da sociedade brasileira que defendem neutralidade e rejeitam intervenções externas.
Na economia, o discurso de Lula é pragmático. O presidente reconhece a importância da cooperação com os EUA para o crescimento, mas sinaliza que não aceitará concessões que comprometam a soberania nacional. Ao mesmo tempo, reforça alianças com os BRICS, a União Europeia e outros parceiros, buscando reduzir a dependência de Washington.
Os pontos de colisão na Casa Branca
Quando Trump e Lula se encontrarem, três eixos devem dominar a conversa:
- Multilateralismo x unilateralismo – O Brasil defende o fortalecimento da ONU; os EUA apostam em estruturas alternativas lideradas por Washington.
- Venezuela – Trump busca consolidar uma transição sob influência americana; Lula insiste em soberania e diálogo regional.
- Economia e comércio – O risco de novas tarifas pode transformar a pauta econômica em moeda de troca política.
O equilíbrio entre pragmatismo e princípios será o maior desafio para o presidente brasileiro.
O que está em jogo
O encontro entre Trump e Lula representa um divisor de águas nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Três cenários são possíveis: um acordo pragmático com concessões mútuas; um impasse estratégico, com esfriamento das relações; ou uma escalada de tensões, marcada por retaliações comerciais e isolamento diplomático.
Independentemente do desfecho, os impactos serão sentidos em toda a América Latina. Estabilidade regional, comércio e a própria noção de soberania nacional estão no centro dessa disputa.
Mais do que um encontro bilateral, Washington será o palco de uma disputa sobre qual modelo de ordem internacional vai prevalecer — e qual será o papel do Brasil nesse novo tabuleiro global.
