Conversas atribuídas a Roberta Luchsinger mencionam dinheiro que deveria ser levado a Fábio Luís; filho de Lula é investigado, mas não há conclusão definitiva sobre recebimento de recursos desviados do INSS
Novas informações das investigações da Polícia Federal aumentaram nesta quinta-feira, 24 de setembro, o escrutínio sobre as relações entre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, a empresária e lobista Roberta Luchsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
Mensagens obtidas pela PF e divulgadas nesta quinta-feira mostram Luchsinger orientando e cobrando a realização de pagamentos que, segundo o conteúdo das conversas, teriam Fábio Luís como destinatário.
Em uma das mensagens reveladas, a empresária questiona onde estava determinado dinheiro. Em outro momento, afirma que o valor deveria ser levado a “Fábio”.
As mensagens acrescentam novos elementos à investigação, mas, até o momento, não constituem conclusão judicial de que Lulinha tenha efetivamente recebido recursos desviados de aposentados e pensionistas. A origem específica dos valores, o destino final do dinheiro e eventual responsabilidade criminal continuam sendo investigados.
Relação com o “Careca do INSS” está sob investigação
Roberta Luchsinger tornou-se uma personagem importante nas apurações por causa de suas relações tanto com Lulinha quanto com Antônio Carlos Camilo Antunes.
Segundo informações da investigação divulgadas anteriormente, a PF identificou que Luchsinger teria recebido cerca de R$ 1,5 milhão de Antunes, apontado pelos investigadores como um dos principais operadores do esquema investigado na Operação Sem Desconto.
A investigação apura um esquema de descontos associativos não autorizados sobre aposentadorias e pensões do INSS. Segundo as apurações, entidades realizavam cobranças diretamente nos benefícios sem autorização válida dos beneficiários.
Estimativas da investigação apontaram movimentações bilionárias relacionadas aos descontos entre 2019 e 2024.
Mensagem sobre R$ 300 mil chamou atenção dos investigadores
Outro elemento já identificado anteriormente pela PF envolve uma transferência de R$ 300 mil.
Segundo informações constantes da investigação, Antunes pediu a um operador que transferisse R$ 300 mil para uma empresa ligada a Roberta Luchsinger.
Questionado sobre quem seria o destinatário do dinheiro, Antunes teria respondido que o valor seria para “o filho do rapaz”.
A interpretação sobre a identidade mencionada na conversa passou a integrar as apurações envolvendo as relações entre Antunes, Roberta e Lulinha.
Esses elementos, entretanto, precisam ser diferenciados de uma comprovação definitiva de que o dinheiro foi efetivamente entregue a Fábio Luís ou de que teria origem direta nos descontos fraudulentos do INSS.
Roberta também aparece em mensagens sobre pagamentos a funcionários de ministério
Outro conjunto de mensagens apreendido no celular de Roberta Luchsinger chamou a atenção dos investigadores.
De acordo com informações divulgadas nesta semana, conversas analisadas pela PF indicam que a empresária orientou um funcionário a realizar pagamentos a funcionários do Ministério do Desenvolvimento Social em 2023.
As circunstâncias e possíveis finalidades desses pagamentos fazem parte das apurações.
A existência dessas mensagens amplia o interesse dos investigadores sobre a atuação da empresária e suas conexões dentro do governo federal.
PF também investiga possível tráfico de influência
As investigações não estão restritas aos descontos fraudulentos do INSS.
Em julho, a Polícia Federal pediu a abertura de um inquérito específico para investigar suspeitas de corrupção e tráfico de influência envolvendo negócios relacionados ao Ministério da Saúde.
Os investigadores apuram se Lulinha teria atuado ao lado de Roberta Luchsinger em interesses empresariais relacionados a uma companhia ligada ao Careca do INSS.
Mensagens analisadas pela PF mostram Roberta pressionando para que Fábio Luís atuasse em negociações envolvendo produtos derivados de cannabis medicinal e kits para testes de dengue.
Segundo informações da investigação, os contratos pretendidos não chegaram a ser fechados.
Em uma das análises, a PF registrou que determinadas demandas de Antunes pareciam depender de uma possível intervenção de Fábio Luís.
Defesa de Lulinha contesta as suspeitas
A defesa de Fábio Luís tem rejeitado as acusações e interpretações apresentadas sobre sua atuação.
Os advogados afirmam que Lulinha não realizou intervenção em favor dos negócios do Careca do INSS junto ao governo federal e sustentam que parte das conclusões divulgadas sobre o empresário seria baseada em inferências não conclusivas.
A própria Polícia Federal também produziu, em outro contexto da investigação, um relatório apontando que determinadas imputações contra Lulinha apareciam “sem lastro probatório”.
Esse elemento é importante porque demonstra que existem divergências dentro do material investigativo sobre a força das evidências produzidas até agora.
Roberta Luchsinger, por sua vez, afirmou anteriormente à PF que apresentou Antunes a Fábio Luís, mas negou ter repassado recursos ao filho do presidente.
Jeffrey Chiquini diz que investigação comprova ligação financeira
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o advogado criminalista e candidato a deputado federal Jeffrey Chiquini apresentou uma interpretação mais contundente dos documentos.
Chiquini afirma que as investigações comprovariam que recursos relacionados ao esquema do INSS chegaram a Lulinha por intermédio de Roberta Luchsinger.
Essa afirmação deve ser entendida como interpretação política e jurídica feita por Chiquini sobre os elementos da investigação. Os documentos divulgados até agora mostram mensagens sobre pagamentos, transferências envolvendo Roberta e referências a Fábio Luís, mas não há, até o momento, condenação ou conclusão judicial definitiva estabelecendo que Lulinha recebeu conscientemente dinheiro proveniente das fraudes contra beneficiários do INSS.
Caso ganha peso político às vésperas das eleições
As novas revelações surgem em um momento particularmente sensível para o governo Lula, faltando poucos dias para o primeiro turno das eleições de 2026.
O caso passou a ser explorado por integrantes da oposição, enquanto as defesas dos investigados contestam interpretações apresentadas sobre os documentos.
A investigação da Polícia Federal deverá ser decisiva para esclarecer três questões centrais: qual era a origem dos valores movimentados, quem efetivamente recebeu o dinheiro mencionado nas mensagens e se houve participação consciente de agentes públicos ou pessoas próximas ao governo em alguma atividade criminosa.
Até que essas respostas sejam estabelecidas por provas e decisões judiciais, é necessário distinguir os fatos documentados das acusações políticas feitas a partir deles.