Relato aponta discussão tensa entre chefe da AGU e Andrei Rodrigues dentro do gabinete presidencial; diretor da PF negou monitoramento ilícito
Uma discussão entre duas figuras importantes do governo federal teria transformado o gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em palco de um confronto envolvendo suspeitas de espionagem e monitoramento pela Polícia Federal.
Segundo apuração publicada nesta quarta-feira (23) pela colunista Marcela Mattos, do UOL, o advogado-geral da União, Jorge Messias, confrontou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, durante uma reunião realizada em 4 de setembro no Palácio do Planalto.
O episódio teria ocorrido na presença do presidente Lula.
De acordo com o relato, Messias questionou diretamente Andrei sobre a possibilidade de estar sendo acompanhado pela inteligência da Polícia Federal.
“Você está me espionando?”, teria perguntado o chefe da AGU.
Messias também quis saber se seu telefone estaria sendo monitorado. A conversa foi descrita por pessoas que tiveram conhecimento do episódio como “dura”, “tensa” e “ríspida”.
Andrei negou espionagem
Andrei Rodrigues negou que a Polícia Federal estivesse espionando ou monitorando ilegalmente o advogado-geral da União.
O episódio ocorreu em meio ao aumento das tensões provocadas por relatórios de inteligência produzidos pela PF e posteriormente utilizados dentro da crise envolvendo investigações relacionadas ao Banco Master.
Dias depois da discussão, Andrei apresentou formalmente sua versão ao presidente do STF, Edson Fachin.
Segundo sua defesa, não ocorreu “qualquer monitoramento” ilícito contra Jorge Messias ou contra o ministro André Mendonça. A argumentação é de que os relatórios questionados não decorreram de vigilância, coleta clandestina de informações ou outras medidas invasivas.
A defesa sustenta ainda que a atividade de inteligência da Polícia Federal consistiu na organização e análise de informações e não pode ser confundida automaticamente com uma investigação criminal.
Discussão aconteceu diante de Lula
O ambiente em que ocorreu o confronto chama atenção.
No dia 4 de setembro, Lula e Messias haviam participado de uma cerimônia no Palácio do Planalto relacionada à sanção de medidas para o sistema de Justiça.
Posteriormente, Andrei Rodrigues participou de uma conversa no gabinete presidencial.
Foi nesse encontro, segundo a apuração publicada pelo UOL, que Messias confrontou o diretor da PF sobre suas suspeitas.
Lula teria acompanhado a discussão.
Pessoas próximas a Andrei disseram à reportagem que o diretor considerou a reação de Messias um “chilique”. A expressão representa a avaliação atribuída a interlocutores do chefe da PF, e não uma descrição independente dos fatos.
Crise ganhou dimensão dias depois
A desconfiança de Messias ganhou uma dimensão institucional quatro dias depois.
Em 8 de setembro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada da Costa.
Mendonça apontou a existência de relatórios de inteligência que, segundo sua interpretação, indicariam um “monitoramento sistemático” sobre sua atuação e também sobre Jorge Messias.
A decisão também determinou a abertura de procedimentos para investigar a produção dos documentos.
A acusação é contestada por Andrei Rodrigues, que sustenta a legalidade da atuação da Polícia Federal.
O afastamento de Andrei acabou levando o próprio governo a realizar uma reunião de emergência no Palácio da Alvorada. Lula recebeu Messias e o ministro da Justiça para discutir a crise.
Messias já enfrentava desgaste político
O episódio acontece meses depois de Jorge Messias sofrer uma derrota histórica no Senado.
Em 29 de abril, os senadores rejeitaram sua indicação para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.
Foram 42 votos contrários, 34 favoráveis e uma abstenção. Messias precisava de pelo menos 41 votos favoráveis para assumir a vaga.
Foi a primeira rejeição pelo Senado de uma indicação presidencial ao STF em 132 anos.
Após a votação, Messias declarou que respeitava a decisão e afirmou que o Senado era soberano.
Episódio expõe divergências dentro do governo
A discussão entre o chefe da AGU e o diretor-geral da Polícia Federal revela a existência de divergências entre autoridades que ocupam posições estratégicas dentro da administração federal.
O que ainda não é possível concluir, apenas a partir desse episódio, é que Lula tenha “perdido o controle do governo”, como afirmam alguns comentaristas políticos nas redes sociais. Essa é uma interpretação política sobre o caso, e não um fato demonstrado pela discussão.
O fato documentado pelas reportagens é que houve um confronto verbal entre Messias e Andrei diante do presidente, motivado pela suspeita do chefe da AGU de que estaria sendo monitorado.
Enquanto Messias manifestou desconfiança sobre a atuação da Polícia Federal, Andrei nega categoricamente qualquer espionagem ou monitoramento ilícito.
O episódio acrescenta mais um capítulo à crise institucional envolvendo a Polícia Federal, integrantes do governo e ministros do Supremo, em um momento de elevada tensão política no país.