Presidente argentino fez duras críticas à organização, voltou a reivindicar as Ilhas Malvinas e anunciou que a Argentina pretende atrair empresas de inteligência artificial com menos regulação
O presidente da Argentina, Javier Milei, fez nesta quarta-feira (23) um dos discursos mais críticos à Organização das Nações Unidas durante a 81ª Assembleia Geral, em Nova York.
Em sua terceira participação na Assembleia como presidente argentino, Milei afirmou que a ONU se afastou dos princípios que justificaram sua criação e chegou a classificá-la como uma “organização inútil” que, segundo suas palavras, serve para sustentar uma “casta de parasitas”.
A declaração fez parte de uma longa crítica ao funcionamento das instituições multilaterais e à expansão da burocracia internacional.
Segundo Milei, o acordo original sobre o qual as Nações Unidas foram construídas — baseado na defesa da soberania dos países, do direito internacional e da solução pacífica de conflitos — foi rompido na prática.
Milei acusa ONU de fracassar em sua missão
O presidente argentino dividiu seu discurso em três grandes pontos: aquilo que, em sua avaliação, a ONU deveria ter feito e não fez; aquilo que não deveria ter feito, mas fez; e a maneira como governos e organismos internacionais deveriam lidar com a inteligência artificial.
Milei argumentou que a organização fracassou na proteção da segurança coletiva e dos direitos humanos.
Também acusou organismos internacionais de interferirem excessivamente nas decisões internas dos países.
As críticas representam a avaliação política do presidente argentino sobre o funcionamento das Nações Unidas. A ONU, por sua vez, defende o multilateralismo e sustenta que problemas globais, incluindo guerras, mudanças climáticas e inteligência artificial, exigem cooperação internacional.
Pandemia volta ao discurso de Milei
Milei também voltou a criticar as medidas adotadas durante a pandemia de Covid-19.
Segundo o presidente, os lockdowns representaram um “experimento de controle social em escala global”.
A declaração está alinhada à postura que Milei vem apresentando contra intervenções estatais que, em sua visão, ultrapassam os limites necessários para proteção da população.
O presidente argentino utilizou a experiência da pandemia como argumento para alertar contra a concentração de poder nas mãos de governos e organizações internacionais.
Malvinas: Milei acusa ONU de “olhar para o outro lado”
Outro momento importante do discurso foi dedicado às Ilhas Malvinas, chamadas pelo Reino Unido de Falkland Islands.
Milei reafirmou a reivindicação argentina de soberania sobre o arquipélago e criticou diretamente a atuação das Nações Unidas.
O presidente afirmou que a ONU estaria “olhando para o outro lado” enquanto aumentam as tensões entre Argentina e Reino Unido envolvendo, entre outros pontos, a exploração de petróleo na região.
Para Milei, a questão coloca em dúvida a capacidade da própria organização de fazer cumprir suas resoluções.
A soberania das ilhas é disputada há décadas. Atualmente, o arquipélago é um território britânico ultramarino autogovernado, enquanto a Argentina mantém sua reivindicação territorial.
Milei pediu a retomada das negociações com Londres para buscar uma solução pacífica para a disputa.
Inteligência artificial: “Argentina estará na vanguarda da liberdade”
Milei reservou uma parte significativa do discurso para um dos principais debates tecnológicos da atualidade: a regulamentação da inteligência artificial.
Sua posição foi clara contra uma regulamentação estatal preventiva.
Segundo Milei, entregar ao Estado o controle sobre a inovação significa, na prática, conceder a funcionários e burocratas o poder de determinar aquilo que outras pessoas podem criar.
O presidente anunciou que pretende transformar a Argentina em um dos países mais competitivos do mundo para o desenvolvimento da inteligência artificial.
Entre as medidas defendidas estão um marco jurídico favorável às empresas, benefícios fiscais e o compromisso de não criar regulamentações preventivas sobre a tecnologia.
A posição contrasta com a defendida pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que nesta Assembleia voltou a pedir mecanismos internacionais de governança e supervisão dos riscos associados à inteligência artificial.
Argentina quer atrair empresas de tecnologia
Milei aproveitou a tribuna internacional para fazer também uma espécie de convite aos investidores.
O presidente destacou as reservas de minerais, a disponibilidade energética e o capital humano da Argentina como vantagens para transformar o país em um centro internacional de desenvolvimento tecnológico.
A estratégia faz parte da política econômica libertária defendida por Milei, baseada na redução da intervenção estatal e na ampliação do espaço para investimentos privados.
Discurso mantém linha libertária de Milei
As declarações desta quarta-feira mantêm a linha política que Milei vem apresentando desde que chegou à Presidência argentina: defesa do livre mercado, críticas à expansão do Estado e oposição ao que considera excesso de poder de organismos multilaterais.
Ao mesmo tempo, seu discurso colocou temas concretos da política externa argentina no centro do debate, principalmente a disputa pelas Malvinas e a tentativa de posicionar o país na corrida mundial pela inteligência artificial.
A dureza das palavras dirigidas à própria ONU tornou-se um dos elementos mais marcantes da participação argentina na Assembleia Geral de 2026.
Em vez de utilizar a tribuna apenas para defender reformas na organização, Milei questionou diretamente seu funcionamento atual e apresentou a liberdade econômica e tecnológica como alternativa ao crescimento da burocracia internacional.